ENFOQUE MACRO | INFORME SEMANAL E PERSPECTIVAS

ENFOQUE MACRO | INFORME SEMANAL E PERSPECTIVAS

BRASIL: Copom elevou a taxa de juros para 12,75%, indicando extensão do ciclo

MUNDO: Fed confirma expectativas e aumenta a taxa de juros básica em 50 pb, para 1,0%

 

Cenário econômico e perspectivas

O ambiente de pressão inflacionária global segue sendo o tema dominante para o cenário econômico. Praticamente todos os principais bancos centrais estão realizando apertos de política monetária e permanecemos esperando que as taxas de juros serão elevadas para acima dos patamares neutros. Enquanto não houver inflexão da inflação global, avaliamos que as preocupações sobre o crescimento do PIB mundial em 2023 seguirão presentes, mantendo a trajetória de revisões para baixo nos próximos meses. O Fed confirmou a expectativa de aceleração do passo de aperto da política monetária, com aumento de 50 pb na reunião de maio. Novas altas de mesma magnitude estão contratadas. Até o momento, a sinalização da instituição deixa em aberto se a taxa de juros precisará avançar para além da taxa considerada neutra (2,5%). Avaliamos que segue válido o cenário que a taxa básica deverá se posicionar em patamar contracionista ao final do ciclo de ajuste. Outros bancos centrais também prosseguem no ajuste da política monetária, mas de forma moderada, com receio sobre o risco de provocarem uma recessão adiante. O caso mais evidente foi o do Banco Central da Inglaterra (BoE).

Novos riscos para o quadro de inflação global seguem no horizonte. Em especial, a possibilidade de restrições nas exportações chinesas por conta da onda atual da pandemia (como referência, as exportações do país estão cerca de 45% do patamar pré-pandemia). Além disso, as sanções sobre a Rússia continuam afetando a perspectiva sobre a oferta de energia, pressionando os preços do petróleo (que voltaram a subir para perto de US$ 110). Nas últimas semanas, as commodities agrícolas também voltaram a exibir certa elevação (o índice CRB Agrícola apresentou alta de cerca de 5%). Portanto, ainda é cedo para considerar que o ciclo de pressões inflacionárias no mundo tenha chegado a um ponto de inflexão.

No cenário doméstico, a deterioração das perspectivas para a inflação também voltou a se verificar. O comportamento desfavorável dos núcleos de inflação parece ser o principal fator para explicar a indicação do Banco Central, em sua última reunião, de estender o ciclo de ajuste. Avaliamos que haverá incremento da Selic em 50 pb na reunião de junho, levando a taxa básica para 13,25%. O Copom tem reafirmado sua visão de que, tendo em vista o ajuste substancial já realizado e as defasagens da política monetária, é preciso administrar novos ajustes com maior parcimônia. A reversão parcial da apreciação da taxa de câmbio também foi desfavorável para a condução da política monetária. Depois de atingir um mínimo ao redor de R$ 4,60, a elevação dos riscos na economia chinesa e o fortalecimento global do dólar por conta do aperto da política monetária nos EUA trouxeram o real de volta para R$ 5,00. Ainda que seja possível alguma apreciação da taxa de câmbio adiante à medida que houver normalização do momento atual de aversão ao risco, avaliamos que o espaço é limitado. A quase totalidade do diferencial para outras moedas de países emergentes já foi fechado e o cenário mais provável é que o ciclo de juros chegue ao fim em um momento no qual outros bancos centrais seguirão avançando na elevação de suas taxas de juros. Vale observar também que o espaço para intervenções do Banco Central tem ficado mais limitado, uma vez que a posição cambial líquida recuou cerca de US$ 90 bilhões nos últimos três anos (atualmente em US$ 235 bi, menor patamar desde 2010).

Eventos da semana

No cenário externo, a semana foi marcada pelas reuniões de diversos bancos centrais que deram continuidade ao aperto monetário ao redor do mundo. Do lado dos desenvolvidos, o destaque foi para a decisão do Federal Reserve, que elevou a taxa de juros em 50 pb, conforme esperado (limite superior do intervalo de 1,0%). O BoE (Banco Central da Inglaterra, sigla em inglês) realizou aperto de 25 pb, elevando a taxa de juros também para 1,0%. Do lado dos emergentes, os principais banco centrais que atuaram na continuação do ciclo de aperto foram República Tcheca, Polônia e Chile, com apertos de 50 pb, 100 pb e 125 pb, respectivamente. No cenário doméstico, o foco não foi diferente, e as atenções do mercado ficaram para a decisão de política monetária do Copom. Em decisão unânime, a autoridade monetária elevou a taxa Selic de 11,75% para 12,75%, confirmando as expectativas. Também indicou uma extensão do ciclo de ajuste, com redução do ritmo para a próxima reunião.

O Banco Central elevou a taxa básica de juros em 100 pb. Em decisão unânime, a autoridade monetária elevou a taxa Selic de 11,75% para 12,75%, confirmando as expectativas. O Copom entendeu que a elevação é adequada para garantir a convergência da inflação para as metas ao longo do horizonte relevante, que inclui o ano-calendário de 2023. De acordo com o comunicado, o ambiente externo se deteriorou adicionalmente em decorrência de novos problemas na cadeia de oferta (em especial por conta da pandemia na China) e do aumento de juros nos países avançados. Domesticamente, a inflação ao consumidor seguiu surpreendendo negativamente, enquanto a atividade indica crescimento em linha com o esperado pelo Banco Central. No balanço de riscos, o Copom adicionou entre os riscos de alta para a inflação a possibilidade de maior persistência da pressão inflacionária global. No lado baixista, o comitê apontou o risco de uma desaceleração da atividade mais acentuada do que a esperada, que não constava anteriormente no balanço de riscos.

As projeções do Copom situam-se acima das metas em 2022 (3,5%) e 2023 (3,25%).  Considerando o cenário de referência extraído da pesquisa Focus, além das premissas de preço do petróleo seguindo a curva futura de mercado e de bandeira tarifária amarela para dezembro em 2022 e 2023,  as projeções do Copom subiram para 7,3% (ante 6,3% na reunião anterior) e 3,4% (ante 3,1% na reunião anterior) para 2022 e 2023, respectivamente. Ao mesmo tempo, cabe destacar que o comitê acrescentou em sua avaliação que a incerteza em torno de suas premissas e projeções está acima do usual.

Sobre os próximos passos, o Copom antevê como provável uma extensão do ciclo com um ajuste de menor magnitude, ressaltando que o atual estágio do ciclo de ajuste e os impactos defasados da política monetária demandam cautela na atuação do Banco Central. Na nossa avaliação, o Copom deverá promover uma alta final de 50 pb em junho, levando a Selic para 13,25%. 

Em março a produção industrial avançou 0,3% na margem. A alta pode ser atribuída à indústria extrativa (0,9%), dando continuidade à forte recuperação do mês de fevereiro de 5,8%. A indústria de transformação, por sua vez, teve queda de 0,6%, após alta de 0,6% em fevereiro, passando a se situar 2,2% abaixo do nível pré-crise. No primeiro trimestre, a indústria apresentou crescimento de 0,3% na margem, com elevação de 1,0% da indústria extrativa e estabilidade da indústria de transformação. Ao longo dos próximos meses, a indústria deverá ser impactada por novos problemas nas cadeias de fornecimento de insumos em decorrência do conflito entre Rússia e Ucrânia, além da nova onda da pandemia na China que tem afetado a disponibilidade de produtos para alguns setores.

Ainda com relação a dados de fevereiro, o indicador de atividade do Banco Central superou a expectativa no mês. Na margem, o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) subiu 0,34%, acima de nossa projeção (0,0%), mas abaixo das expectativas de mercado (0,4%). O índice repercutiu o avanço das vendas no varejo ampliado (2,0%) e da produção industrial (0,7%), mas queda do volume de serviços (-0,2%) ao longo do mês de fevereiro. Com o resultado, o IBC-Br está 0,15% acima do nível pré-crise. Além disso, a média dos dados de janeiro e fevereiro representam queda de 0,2% em relação à média do 4º trimestre de 2021. De forma geral, apesar do início de trimestre com sinais de arrefecimento, o desempenho da indústria e os dados de alta frequência apontam um quadro mais favorável para o crescimento da atividade no primeiro trimestre. Nossa projeção para o crescimento do PIB fechado de 2022 é de 0,8%.

Nos EUA, o Fed elevou a taxa de juros básica em 50 pb, para o intervalo entre 0,75% e 1,00%. A respeito do cenário, prevalece a leitura de inflação elevada e com pressão disseminada, refletindo choques de oferta e demanda relacionados à pandemia. Nesse sentido, o Fed menciona que as restrições na China exacerbam o risco de desorganização das cadeias industriais. Os membros também mantiveram a preocupação com a repercussão inflacionária da invasão da Ucrânia pela Rússia. O mercado de trabalho permanece robusto na avaliação do comitê. A respeito dos próximos passos, o comitê antecipou que novos aumentos serão apropriados. Ademais, conforme amplamente esperado, o Fed anunciou o início da redução do balanço, a partir de junho. Entre junho e agosto, o limite para redução do balanço de títulos públicos será de US$ 30 bilhões ao mês e o de títulos imobiliários de US$ 17,5 bilhões ao mês. A partir de setembro, esses limites aumentarão para US$ 60 bilhões e US$ 35 bilhões ao mês, respectivamente.

Na entrevista após a reunião, o presidente do Fed descartou, nesse momento, a possibilidade de acelerar o ritmo de ajuste dos juros para 75 pb. Embora reconheça o ambiente de pressão inflacionária disseminada, Powell considera que o ritmo de 50 pb é o mais adequado para alcançar a taxa neutra de juros e que esse cenário é compatível com uma desaceleração da inflação, sem causar recessão. Em nosso cenário, contemplamos quatro altas de 50 pb nas próximas reuniões, com a taxa básica de juros encerrando o ano em 3,25%, acima do nível de 2,5%, considerado neutro. Para a taxa terminal, nosso cenário base é de 4,00%.

Os EUA registraram criação de 428 mil vagas de emprego em abril. O resultado ficou acima da expectativa do mercado de 390 mil vagas. A taxa de desemprego ficou estável em 3,6%, sendo composta por uma queda no número de pessoas à procura de emprego (a taxa de participação cedeu de 63,4% para 62,2%) e queda no número de ocupados em 353 mil. A respeito dos salários, houve alta de 0,3% na margem, frustrando a expectativa de alta 0,4%. Em termos anuais, os salários desaceleraram de 5,6% para 5,5%. Em relação ao patamar pré-crise, tanto o número de empregados como o número de pessoas à procura de emprego se situam 0,3% abaixo do patamar de janeiro 2020. Em resumo, o relatório de emprego de abril segue compatível com a avalição do Fed de um mercado de trabalho “muito forte” e continuidade do aperto monetário.

Sofrendo os impactos da política de ‘Covid zero’, os dados de confiança (PMI Caixin) na China mostraram forte recuo da atividade em abril. O PMI da Indústria passou de 48,1 em março para 46,0 em abril, enquanto o PMI de Serviços passou de 42,0 para 36,2 pontos no mês. Ambos os indicadores representam contração da atividade (nível abaixo de 50 pontos). Com este resultado, o PMI Composto passou de 43,9 para 37,2 pontos em abril, o menor nível desde fevereiro de 2020, quando o indicador chegou a 27,5 pontos. A tendência de desaceleração da atividade observada nos últimos meses tem sido intensificada pelo aumento de novos casos de Covid-19 em ritmo acelerado e pelas medidas de restrição nos principais centros econômicos do país. A continuidade do nível de restrição atual pode implicar novas revisões baixistas para o PIB, para o qual projetamos crescimento de 4,7%.

Na próxima semana

Na agenda doméstica, destaque para a divulgação do IPCA de abril (BRAM: 0,99%) e para a divulgação de dados de atividade dos setores de comércio e serviços, na terça e quinta-feira, respectivamente. No cenário internacional, destaque para os dados de inflação dos Estados Unidos na quarta-feira.

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