ENFOQUE MACRO | INFORME SEMANAL E PERSPECTIVAS

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BRASIL:  Copom reduz Selic a 2,0% a.a e sinaliza mantê-la por período prolongado

MUNDO: Desemprego nos EUA cai pela 3ª vez consecutiva e segue em recuperação gradual

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 p.p, com a indicação que a taxa de juros deve ser mantida próxima do patamar atual por período prolongado. Em decisão unânime, a Selic passou de 2,25% para 2,00% a.a., corte em linha com a expectativa de mercado e a nossa projeção. No comunicado, o Comitê ressalta que a pandemia causada pelo Covid-19 continua provocando a maior retração global desde a Grande Depressão. E que, mesmo com alguns sinais promissores de retomada de atividade nas principais economias e relativa moderação na volatilidade dos ativos financeiros, o cenário permanece desafiador para as economias emergentes. O Copom também destacou que a economia brasileira demonstra sinais de recuperação parcial, porém não de forma homogênea entre os setores. Ainda, foi frisado a incerteza acima do usual quanto ao ritmo de recuperação econômica, principalmente no final deste ano, com o possível fim ou arrefecimento dos efeitos das medidas de estímulo fiscal, principalmente o auxílio emergencial.

As projeções do BC apontam para inflação mais próxima à meta somente em 2022. Considerando o cenário híbrido, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio constante em R$5,20/US$, as projeções do Copom situam-se em 1,9% em 2020 (ante 2,0% em junho) e 3,0% em 2021 (ante 3,2% em junho). No cenário com taxa de juros (2,25% a.a.) e de câmbio constantes, as projeções situam-se no mesmo patamar para 2020 e 2021. Em ambos os casos as projeções se situam abaixo da meta. Somente para 2022 elas se aproximam da meta (3,5%),  no caso, 3,4% no cenário híbrido (Selic a 5,0%) e 3,7% no de referência. Acreditamos que a continuidade da ociosidade elevada, agravada pela crise atual, permitirá uma trajetória benigna de inflação para os horizontes de médio prazo.

A respeito do balanço de riscos para a inflação, o BC ressalta que permanecem riscos em ambas as direções. De um lado, a pandemia acarreta aumento de incerteza e maior poupança precaucional, e com isso, potencial redução da demanda ainda maior e mais prolongada do que a estimada. Caso que se intensifica com uma reversão mais lenta da pandemia. Por outro lado, medidas fiscais em resposta à pandemia que gerem deterioração da trajetória fiscal de forma prolongada, aliadas à incerteza sobre a continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco. Além disso, as políticas de recomposição da renda e estímulo creditício podem fazer com que a queda da demanda agregada seja menor que a esperada, implicando trajetória de inflação acima a cima do projetado no horizonte relevante para a política monetária.

Para o Banco Central, esse cenário continua a prescrever estímulo monetário extraordinariamente elevado, mas reconhece que o espaço remanescente de política monetária, se houver, deve ser pequeno. Com isso em consideração o Copom introduziu a “forward guidance” de que a Selic deve permanecer onde está até a expectativa de inflação estar próxima da meta no horizonte relevante da política monetária (2021 e, em menor grau, 2022). Se houver espaço para novos cortes, devem ser feitos de forma gradual e a depender da percepção sobre a trajetória fiscal e as expectativas de inflação. Avaliamos que a Selic deve permanecer nesse patamar até pelo menos o 2° semestre de 2021.

A inflação ao consumidor (IPCA) registra alta em julho. O índice variou +0,36% no mês, em linha com a nossa projeção (0,37%) e do mercado (0,35%). Os preços nos grupos de ‘Alimentação’ e ‘Artigos de residência’ subiram acima do esperado, porém o efeito foi compensado pela menor alta em Transportes, com gasolina (+3,4%) abaixo do esperado (+4,1%). Entre os demais grupos, destaque para ‘Vestuário’ (-0,52%) e ‘Serviços’ (-0,11%), que seguem afetados pela pandemia. Por sua vez, a média dos núcleos de inflação (exclui itens voláteis) segue baixa, em 0,13%, ao passo que, em doze meses, a média se manteve próxima do patamar de 2,0%, o que sinaliza continuidade do cenário benigno para a inflação. Mesmo com a retomada da atividade e os preços no atacado mais pressionados, a expectativa é de arrefecimento do IPCA em agosto. Para 2020, nossa projeção é de 1,7%, abaixo do piso da meta do Banco Central (de 2,5%).

A produção industrial avançou 8,9% na margem em junho, refletindo a retomada gradual da economia. O resultado foi maior do que a nossa expectativa (8,0%) e contou com avanços da indústria de transformação (9,9%) e da indústria extrativa (5,5%). Na indústria de transformação, houve crescimento disseminado em 91% das atividades. Dentre as categorias de uso, destaque para a elevação em bens de consumo (+15,9%). ‘Insumos típicos da construção civil’  também cresceram, 13,9% no mês. Apesar dessa recuperação, a produção industrial segue 13,2% abaixo da média do pré-crise. Os dados do mês demonstraram uma retomada gradual da indústria em meio à mitigação das medidas de isolamento social, fato que deve se manter nos próximos meses. Com o resultado, nosso tracking do PIB no 2º trimestre segue ao redor de -9,0% na margem.

A taxa de desemprego atingiu 13,4% no trimestre encerrado em junho. De acordo com os dados da PNAD, a taxa com ajuste sazonal aumentou de 12,3% em maio para 13,2%. No entanto, essa elevação foi atenuada por pessoas que deixaram de buscar emprego: enquanto a população ocupada recuou 2,8%, a força de trabalho recuou 2,1%. Considerando a taxa de participação constante, a taxa de desemprego com ajuste teria sido de 20,1%. A maior contribuição para a queda do número de ocupados veio novamente do trabalho informal, que recuou 4,4% na margem. Entre os setores, as maiores contribuições negativas vieram do comércio (-3,5%), seguido de serviços domésticos (-6,4%). A massa de rendimento efetivo, por sua vez, em maio, teve queda de 4,3% no mês. Vale ressaltar que a PNAD não considera como desocupados os trabalhadores com contrato de trabalho suspenso, que totalizam cerca de 5 milhões de pessoas até junho. Com isso, a queda dos ocupados deve se intensificar nos próximos meses.

Balança comercial encerrou julho com saldo de US$ 8,1 bilhões, decorrente de uma queda menor de exportações (-4,5%), do que de importações (-35,2%), ambas afetadas pela pandemia. No ano, o saldo comercial é de US$ 30,3 bilhões, representando um aumento de 7,9% comparado ao mesmo período do ano passado. Avaliamos que o crescimento das exportações deve continuar impulsionado pelas vendas de commodities, enquanto as importações devem seguir em ritmo mais modesto. Nossa projeção é que o saldo comercial encerre o ano em US$ 48,9 bilhões.

EUA registram surpresa positiva com a criação de 1,8 milhão de empregos em julho. Com aumento de vagas formais, a taxa de desemprego no país atingiu 10,2%, ante 11,1% em junho. O resultado foi melhor do que o esperado pelo mercado (10,6%). Dentre os segmentos, a maior criação de vagas ocorreu em serviços de lazer e alojamento, com 592 mil vagas. geral, os dados refletem a retirada gradual das medidas de isolamento social. O país concretiza 9,1 milhões de vagas criadas desde maio, entretanto o resultado devolve apenas parcialmente a destruição recorde de 20,5 milhões de vagas em abril. E apesar da melhora, o número de pessoas que querem um emprego, mas não trabalham, é 2,8 milhões acima do que em fevereiro. Com a retomada gradual da atividade, os próximos meses devem continuar apresentando recuperação do mercado de trabalho nos EUA.

Na Zona do Euro, as vendas no varejo registraram alta em junho. As vendas do varejo avançaram 5,7% no mês, ante avanço de 20,3% em abril. Na comparação interanual, as vendas no varejo passaram de -5,1% em maio para 1,3% em junho. O índice chegou a alcançar queda de 19,6% na comparação interanual em abril.  Essa retomada é compatível com retração da ordem de 8% do PIB da região no ano.

Índices de confiança da Zona do Euro e EUA avançam em julho e já superam patamar pré-crise. O PMI composto (serviços e indústria) da Zona do Euro atingiu 54,9 pontos em julho ante 48,5 em junho (abaixo de 50 pontos indica contração). Enquanto isso, o PMI composto dos EUA aumentou para 50,3 pontos em julho, ante 47,9 em junho. O índice dos EUA foi o melhor desde janeiro e o indicador da Zona do Euro chegou ao seu maior valor desde julho de 2018. A continuidade na melhora da confiança segue dependendo da evolução da pandemia e da reabertura nos países, e especialmente da recuperação do mercado de trabalho. Os índices são compatíveis com uma recuperação da atividade no 2° semestre, porém ainda condizente com queda de 3% do PIB Global em 2020.

 Na próxima semana

Na agenda local, destaque para a divulgação dos dados de atividade (comércio e serviços) de junho e a Ata do Copom. Na agenda internacional, destaque para os dados de vendas no varejo e produção industrial nos EUA, divulgados na sexta-feira.

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